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  • Foto do escritorDavi Nogueira

Grafismo: o que é e quais os principais tipos dessa arte


Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, é coberto com grafismos de aldeias do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso (Foto: Agência Brasília/Wikimedia Commons)


Arte, estética, comunicação


O grafismo é uma expressão cultural de vários povos que, atualmente, também integra o design de interiores. Saiba mais.

Existem diferentes estilos de pintura. Embora a pintura clássica seja a mais celebrada, o abstrato oferece valor, significado e subjetividade. O grafismo é um exemplo disso. Suas primeiras manifestações ocorreram há milhares de anos, e até hoje, essa tradição é transmitida de geração em geração.

Mais do que uma tendência estética, o grafismo é uma expressão cultural, uma forma de comunicação e um símbolo de identidade para determinados povos originários.

A seguir, você vai entender o que é grafismo, seus tipos e como ele se manifesta na decoração.


O que é grafismo?

Exemplo de grafismo indígena (Imagem: Wikimedia Commons


O grafismo é uma forma de arte visual que tem suas raízes na cultura indígena e, atualmente, está presente em várias manifestações artísticas, como quadros, tatuagens e até na decoração de residências.

No grafismo, as linhas seguem um equilíbrio e ritmo constantes, formando desenhos que identificam povos indígenas específicos. No entanto, também é perceptível em culturas africanas.


Ancestralidade


Muitas pessoas utilizam o grafismo pela estética, mas nem todo grafismo representa alegria. Alguns traços podem simbolizar tristeza, luto ou até a quantidade de filhos de um indivíduo.

Existem muitos simbolismos que, embora não sejam evidentes como em ilustrações tradicionais, carregam significados profundos para alguns povos.

Um grafismo pode definir a identidade de um grupo, mostrando a um indígena a qual povo outro indivíduo pertence. Ele também pode possuir simbolismos mágicos e cosmológicos, dependendo dos grupos a que está associado.


Comunicação e Arte


O grafismo é uma expressão estética refinada, que pode revelar valores culturais sutis, como força, crenças e valores.

Pintar-se com esses símbolos também é uma forma de resistir ao colonialismo, preservando a tradição de um povo.


Grafismo Corporal


Essa forma de arte é frequentemente vista como pintura corporal, onde adquire mais significados. É, como mencionado, uma forma de comunicação entre indivíduos de diferentes povos.

Além da estética, o grafismo pode estar relacionado ao papel social da pessoa em sua comunidade.

Um grafismo pode indicar, além do número de filhos, uma identificação entre aldeias, o estado civil e até algum tipo de rito.

Por ser uma ferramenta de comunicação tão importante, a técnica é ensinada desde a infância pelos indígenas em suas atividades cotidianas. Assim, é uma prática transmitida de geração em geração, que não se perde com o tempo.


Cores


O grafismo indígena é feito com materiais encontrados na natureza. Por isso, as cores predominantes são vermelho (extraído do urucum), marrom, branco e preto.

Indígenas fazendo pinturas estilo grafismo em visitantes (Foto: Jean Marconi


Educação Infantil


Além de ser um símbolo cultural, o grafismo tem sido adotado como um recurso valioso na aprendizagem infantil. As crianças podem tanto criar os desenhos quanto colorí-los.

Esse tipo de arte auxilia no desenvolvimento da coordenação motora, do processo cognitivo e da criatividade, ampliando seu conhecimento sobre cores, imagens, linhas, formas e detalhes.


Grafite e Grafismo são a Mesma Coisa?


Apesar dos nomes semelhantes, grafite e grafismo não se referem ao mesmo tipo de arte.

Derivado do termo "graffito", o grafite é um tipo de arte que envolve inscrições feitas em muros, paredes de edifícios e até no chão. Essa arte costuma refletir costumes, críticas e tendências estéticas de uma cultura, região ou classe social.

Existem registros de grafite desde o Império Romano, onde cidadãos escreviam relatos do cotidiano, piadas e até críticas ao governo.

Nas catacumbas romanas, onde os cristãos se escondiam para fugir da perseguição romana, também há desenhos que retratam a vida de Jesus.

Grafismos feitos com bordado (Foto: PxHere


Até mesmo a arte pré-histórica pode ser considerada um tipo de grafite, pois também retrata a cultura dos povos daquela época.


No entanto, o grafite só se tornou popular durante as décadas de 1960 e 1970, quando temas como transgressão e contracultura estavam em alta.

A inscrição nos muros era uma forma de protesto, especialmente nas periferias, como no distrito do Bronx, em Nova York, nos Estados Unidos.

O grafismo, por outro lado, é uma expressão estética que envolve a repetição de linhas para formar desenhos geométricos.

É possível, por exemplo, criar um grafite com grafismos, mas não necessariamente o contrário, já que o grafite está mais relacionado ao espaço e à mensagem transmitida do que ao estilo de desenho.


Quais são os principais tipos de grafismo?


O grafismo se diferencia pela direção das suas linhas. Veja:


Convergentes

As linhas saem de pontos diferentes e se encontram em uma mesma direção.


Divergentes

As linhas partem de um mesmo ponto e seguem para direções diferentes.


Paralelas

As linhas estão sempre lado a lado, seguindo a mesma direção, mas nunca se cruzam. A distância entre uma e outra também é sempre a mesma.


Perpendiculares

As linhas se cruzam formando ângulos retos (90º).


Grafismo indígena: identidade e resistência

As sementes do urucum são usadas para produzir pigmentos vermelhos (Foto: Leonardo Aguiar)


Entre os indígenas, o grafismo é uma herança que resistiu à colonização e ao passar dos séculos.


Essa arte gráfica geométrica é produzida por povos indígenas em todo o território brasileiro.

O grafismo se mantém como uma forma de comunicação, manifestação de religiosidade e até status dentro das comunidades.

Ele aparece na pintura corporal, nos cestos, na cerâmica, no artesanato com miçangas e em diversas outras manifestações artísticas. Cada povo desenvolve um ou mais tipos de desenho.


A Tinta


Como mencionado, o grafismo indígena é feito com materiais naturais, como urucum, jenipapo, mogno, açafrão e pau-brasil.

Geralmente, os pigmentos são extraídos das plantas, mas também podem ter origem animal, mineral e até de microrganismos.

O conhecimento tradicional permitiu o desenvolvimento de diversas técnicas para a extração de tinta. Algumas sementes podem ter seu corante extraído quando espremidas; outras precisam ser fervidas, raladas e peneiradas.

O urucum, por exemplo, exige fervura prolongada. Após isso, é necessário deixar o pigmento esfriar antes de aplicá-lo no corpo.

Outro fator importante é que cada semente gera uma cor diferente. O urucum produz o pigmento vermelho; o preto é feito com uma mistura de jenipapo e fuligem; o amarelo vem do açafrão; e o branco é extraído da tabatinga.


Significado

O grafismo indígena está presente no artesanato, incluindo na cestaria (Foto: Giba Härbe)

Como você viu, cada povo indígena desenvolve seu próprio grafismo.


Isso não significa que os desenhos não possam se repetir. A sequência de traços pode até ser a mesma, mas o significado muda — e muito — entre as diferentes etnias.

Algumas pinturas também estão ligadas a significados considerados mágicos e cosmológicos pela comunidade.

Mas, acima de tudo, o grafismo carrega ancestralidade. É como contar parte da história de um povo através das pinturas feitas no corpo ou em um objeto.

Mesmo que o significado mude e que alguém de fora não necessariamente o entenda, expressar-se por meio do grafismo já demonstra coragem e orgulho.

Um grafismo pode significar status civil e social, visões de mundo, valores tradicionais da comunidade, religiosidade, cosmologia e muito mais.

Por ser uma ferramenta de comunicação, o grafismo indígena é ensinado desde a infância. Isso preserva e perpetua as tradições, além de fortalecer o vínculo entre o indivíduo e sua aldeia.


Grafismo Guarani


O povo Guarani foi um dos primeiros a ter contato com os europeus após o desembarque na América do Sul.

Sua história é contada através de grafismos presentes em objetos tanto ritualísticos quanto domésticos.

É importante lembrar que seu artesanato — e, consequentemente, o grafismo nele retratado — tem uma forte ligação com Nhanderu, o ser criador na cultura tupi-guarani.

Os desenhos também refletem o sistema e o comportamento da etnia. Por exemplo, um grafismo pode representar o caminho feito de uma aldeia para outra.

Desenhos semelhantes a estrelas indicam uma forma de contagem relacionada à caça, homenageando os homens que saem pela mata e trazem animais para o consumo da comunidade.

No balaio, o padrão da cobra-coral, segundo a mitologia, protege os alimentos dentro dele.


Comércio


Atualmente, o povo Guarani desenvolveu grafismos sem significados sagrados para comercializar com os juruás (não indígenas).

Assim, o cliente pode ter um desenho feito por um artesão indígena, colorido e com características da comunicação desenvolvida em determinada aldeia, mas sem um sentido voltado ao divino.

Essa "arte comercial" é muito vista nos colares. Feitos de miçangas compradas na cidade, eles podem ser usados tanto pela artesã quanto por pessoas de fora.

Além dos grafismos, as artesãs (os colares são sempre feitos por mulheres) podem escrever o nome do usuário e do time de coração em português ou guarani, flores, animais, estrelas, o sol e outros ícones simbólicos para a comunidade.

Já os colares feitos com sementes, elementos sagrados para o povo Guarani, têm como objetivo proteger a pessoa que os usa.


"Arte Primitiva"?

Membros da etnia Yawalapiti com pintura corporal (Foto: Encontroteca)


É comum que o grafismo indígena seja chamado de "arte primitiva"


Embora os povos indígenas sejam originários, os grafismos brasileiros são, na verdade, um complexo código de comunicação entre membros de uma mesma comunidade ou entre diferentes etnias. Portanto, uma arte pode ser ancestral, mas isso não a torna simplória ou primitiva.


Como o Grafismo se Manifesta na Arquitetura?


Arte, moda, arquitetura e decoração se entrelaçam. Por exemplo, tendências observadas em certos grupos acabam se tornando populares em larga escala, como aconteceu com o jeans usado pelos trabalhadores ingleses e posteriormente adotado pelo movimento punk.

Na arquitetura e na decoração, isso não é diferente. Temáticas como a arquitetura escandinava e a japonesa têm características muito específicas e se tornaram tendências nos respectivos segmentos.


Veja como o grafismo se manifesta na composição interna e externa de residências:

Quadro com grafismo é forma simples de inserir a arte na decoração (Projeto: Jéssica Campos/ Foto: Felipe Araújo) 


A maneira mais fácil de inserir um grafismo na sua decoração é por meio de quadros. Eles podem ser inseridos em qualquer lugar, até que se encontre um ambiente que combine com suas cores e traços. 


No ambiente acima, o quadro com grafismos se camufla no ambiente, em que a repetição de cores é expressa por elementos orgânicos ou de cor terrosa. Até as sombras que desenham a parede trazem um desenho que lembra os grafismos indígenas. 



Grafismo como grafite contrasta com a decoração do banheiro (Projeto: Renato Forti/ Foto: Alessandro Gruetzmacher) 


A pintura na parede também é uma forma moderna de adotar o grafismo. No banheiro, há uma "quebra de expectativa", com o desenho contrastando com a decoração mais vintage do ambiente.  


Quadros com grafismos combinando roubam a atenção do ambiente (Projeto: Klaxon Arquitetura/ Foto: Mariana Boro) 


O contraste dos quadros preto e branco se complementa com a parede preta. O desenho cíclico, sem início e fim aparentes, rouba a atenção na decoração neutra, com predomínio do preto. 

O grafismo, aliás, mostra que a cor pode ser neutra, mas não necessariamente sem graça. 



Grafismos contemporâneos inovam no traçado e no uso das cores (Projeto: Leonardo Tulli/ Foto: Eduardo Macarios) 


Na sala acima, os quadros apresentam grafismos que diferem bastante do estilo indígena ou africano.


Embora a estrutura seja semelhante, com repetição de traços e uso de ângulos, a criatividade nos desenhos permitiu uma modernização que se desvincula do que pode ser considerado sagrado ou profano por diferentes povos.

Percebeu como o grafismo é mais do que um simples desenho? Parte intrínseca da cultura, ele também é uma manifestação estética e histórica de cada povo que o cria.



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Até a próxima!

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